Um Clandestino No Universo
Textos, Ensaios, Poesias, Contos e outras bobagens de um clandestino no universo...


Quarta-feira, Junho 09, 2004  

Conselho

- Ao mau bebedor -
meia garrafa não basta
a uma garganta tão casta!
Pior: a baba (ou o cuspe) que gasta.
Ou o agarrado, o bafo, que afasta
o bom (de) senso.
Contra-senso
digo-lhe: pouco beber.
Igual a tarrafa
(tudo a abranger)
vamos, aprenda a viver.
Salve a cuca cheia.
Fora a dose, copo...
meia-garrafa.
No mínimo, garrafa e meia.

posted by Adilson Comments: 16:07
 

A dor

Ela não lhe pertence
nem a um qualquer;
só à barriga com fome ,
só a gente sem nome.
Só bilros sem renda;
atrai o mínimo. Nem
o máximo ela quer.
Trabalho, teto, nos sem
terra ela fixa tenda.
Por certo não o atenda.
Sabe-o o que trabalha ,
a mão que entalha,
aquela que lavra
- quem –
o sentimento da palavra
- tem –
onde mora a dor.

posted by Adilson Comments: 16:05
 

Quando a poesia dói?

Trinta? Vinte e nove?
Não, não. São vinte e tantos.
Quantas? Quantos?
Lamuriam tulipas
No Bar Savoy

Grita o proleta afoito:
“Dor mais renitente
-a da nossa gente –
real na porta das empresas,
nos vazios de panelas e mesas,
chorar quem há-de?

Os bem –nascidos cospem à boutade.

Escorrem chagas, escorrem
Nas artérias, “hotéis”, houses,
Palafitas...
Chorar? Quem há-de?

posted by Adilson Comments: 16:02
 

Sessão Poemas

Gueto

Cria fama
e deita na lama:
o gueto reclama
mas a voz do copo conclama.
Cria lama
e deita na fama:
do gueto a voz exclama.


Espoliados

Sangue, lixo, minha epopéia
da fome escrevo odisséia
sobreviver na manguecéia
da lama, grito: manguetown.
Manguetown, manguetown.
Na cova, na rede, um clown.
Aranha, na parede, centopéia,
mil braços pra viver: manguecéia.
Nem osso pra roer, vida plebéia.
Vida plebéia, centopéia, manguecéia
Siris, esgoto, desova – periferia,
O caixão acompanha a disenteria
o gueto cose, cospe a maioria.
Periferia, criança morta, disenteria,
Na periferia é maioria.
O lixo que os de cima manda
o pico que a tudo desanda
por baixo é quem comanda
os guabirus, ratos, guabirus.
Pelo chão, aos tapas com guabirus;
por cima, só urubus, luxo, urubus.
No chão, lama, rato, sangue, guabirus,
pelo chão, troco tapas com guabirus;
por cima, reinam urubus, urubus
nos espoliam os urubus, urubus.
Só urubus, os urubus.
Por cima, verdinha, ouro, tetéia,
por cima, muamba, treta, Frinéia;
pelo chão, sofre a patuléia,
baculejo, bala, fome na rafaméia.
Pelo chão sofre a patuléia, a rafaméia.
Manguetown, na manguecéia

posted by Adilson Comments: 15:58


Sexta-feira, Setembro 26, 2003  

CONVERSA SEM FUTURO...

Algumas pessoas dizem que conversa de velho é de encher o saco. De qualquer vivente. O macróbio afirma, sem parar, que, no seu tempo, tudo era melhor. Que o mundo tá virado. Que o futuro é negro (se for racista. Do contrário dirá: tá perdido).

Observando-se o fulcro do colóquio, a gente vê que a alegria de certas pessoas é criar infelicidade nos jovens. Já outros deixam os prognósticos, abandonam as ”profecias” e voltam-se aos seus contemporâneos. É a hora da saudade.
Aí, é um deus-nos-acuda. O que dá de doença, de briga.... não tá no gibi. É preciso muito alfenim para adoçar a boca. Torna-se preciso muito Galenogal. Ou Emulsão de Scott. Ou mezinhas que, só, os da antiga conhecem.
Num desses conclaves dos entas ou sex (isto é:quarenta, cinqüenta, setenta ou SEXagenário), a conversa esgotou-se. Decorrera a hora normal de reunião. Aí, não mais que de repente, a pergunta fatal: Vocês viram Fulano? Ele tá doente. Seguiu-se a descrição do quadro clínico.
Pronto. Tal qual fogo na caatinga, o incêndio alastrou-se. E Beltrano? Uma tossezinha. Vai a um médico, vai a outro. Virou pneumonia. Sicrana coçou o olho. Conjuntivite? – perguntou terceiro. “Que nada. Era...”. A sessão nosológica durou quase uma hora e fazia honra a qualquer graduação da Faculdade de Medicina.
Já estava angustiado, deprimido, com tanta doença, quando se fez silêncio. Silêncio tumular. Após 10 minutos – pensei, cá, comigo – vai recomeçar o segundo tempo. É assim no futebol: uma paradinha, água, cerveja, “água-no-joelho”, cafezinho, temperar a garganta.
Passados 12, 15, 20 minutos, nada. Relaxei. Felizmente, aduzi. Foi o meu erro. Acreditei que o urubu debaixo não defeca no de cima.
-“Fulana melhorou da gripe?
-“Que nada! A gripe evoluiu e ela faleceu” – resposta no pé da língua.
“Quem faleceu foi ....”
“E ..... ? uma garotona, vendendo saúde e se foi”
“Eu tenho pena de ...... Quando pensava em aposentar-se, o carro virou e ela....”
“Não me diga, menina? ....... morreu? Forte, disposto, nem parecia que tinha 80”
“Coitada de....., cheia de vida, foi tirar um cisto e ......”.
As notícias prosseguiram. Fechei as ouças. Depois de algum tempo, vejo as bocas fechadas. Tiro o algodão dos ouvidos. Perguntaram por um conhecido puxa-saco, sonhava com a chefia.
“Sim....sim. Não tem de que reclamar!” Resposta incisiva.
Pensei: puxou tanto que almejou o acalentado. Perguntei: ganhou a prebenda?
“Toda. Para sempre. A cova . De sete palmos”.
E aquele outro, brincalhão?, que “matava o trabalho”. “Viajava” muito.
“Deve estar feliz. Viajou....Para a Terra dos Pés Juntos.”
Secretário deixou de brigar com a mulher? Falei tentando desviar o aspecto soturno.
Resposta agradável: ”Sim, sim. Foi a Belo Horizonte”
“Não voltou” – acrescentou um terceiro.
Espantei-me.” Descobriu ele o amor, lá?”
A resposta simples: “casou com Maria angico”.
De supetão, alguém acrescentou: “Mas, a viúva, a mulher, voltou”.
Suspirei de alívio: o assunto mudara.
“No ataúde” – acrescentou a interlocutora. “Angina” – concluindo a informação.
Assustado, “pedi o boné” e corri para a porta. Os acompanhantes ofereceram-me vários convites de missa de sétimo dia, de mês...Além de recortes de avisos de óbito.
Ao descer a escadaria, uma voz gritou: “vou telefonar para dar notícia do resto do pessoal”. Desliguei o convencional e nem atendo celular. Agora, só no dia de Finados.

posted by Adilson Comments: 19:25
 

Poemas...

Clarividente

Clarinha é uma garota muito especial,
Sensível, l,67m, 55 kg, malha etc. e tal.
Gestos, roupa, falar, tudo artificial
(detesta livro – como é de seu natural)

“Transmite” a novela das oito,
molha-se com o galã do seriado,
seu ídolo confessa viver “chapado”,
no baú do Sílvio pensa, no coito.

Extasia-se com a Ferrari na pista,
sonha: no Gordo – entrevista,
Campari, “Caras” - como o artista.
Renan, Ronaldo, Guga (?) – na sua lista.

Kombi, camelô, rua – sua passarela
Pose, andar, biquinhos – só a Gisela.
“tão elegante quanto uma gazela”

“Xi, está na hora de dormir”
Prisão de ventre, flatos, a ronqueira
“Mãe, me dá chá de cidreira!”

O pão com sopa do mercado
Não faz bem a ser tão delicado.

posted by Adilson Comments: 19:23
 

Carta registrada.

A morte se avizinha. Não quero nem a desejo. Mas acho que a invencível troteia, em passos largos, a meu encontro.

Antes que se manifeste algum kardecista (ou filho de santo), aviso que não incorporei Renato Russo nem qualquer gênio pessimista (Kafka, Schopenhauer, por exemplo) e que Zaratustra falou coisas interessantes – como muitos outros, mas não fez minha cabeça.

Se fossem previsões de Irmã Marlene ( ou mestre de igual profissão ou assemelhada), por certo que seriam em sépia. A leitura de minha aura, segundo os entendidos, provoca imensa satisfação nos meus entes queridos.
Mas, sei, vejo-a sorrindo, que a dona de todos deu-me um sinal.

Com seu balbuciar estudado, a zíngara da praia me buzinara aquelas baboseiras (vida longa, vejo na linha da vida, felicidades no amor e muito dinheiro, você poderá obter). Confesso: aquela encenação, em troca de uns míseros10 reais, provocou-me risos. Não os manifestei em respeito ao ser humano, ali, presente. Porém, intimamente, a deusa dos destinos me cochichava. Nem se torna necessário lê-la nas estrelas.

Muito menos, tal pensamento é desprezo à equipe médica a que recorro usualmente, a qual registra estado ótimo de saúde a meu respeito.

A certeza de que a espada mágica me espreita não está ligada à terrível enxaqueca que, duas a três vezes ao ano, me joga para escanteio; muito menos em saber que a “tragédia José Neves – os Jotas” continuará infelicitando o Santa Cruz (nem ao Sport, eu desejo igual desiderato).
Quando me certifico que o fim está próximo, nada se relaciona ao atual estágio de luta das causas socialistas (de cujo sonho me alimento há várias décadas) nem por crer nas bocas apocalípticas.

As ciências dizem que a expectativa de vida amplia-se (hoje, é de 67 anos) e as condições físico-psíquico-sociais vislumbram-me longevidade maior ainda. Quem entende das coisas mais prosaicas também garante igual caminho (esse aí não morre tão cedo.Com essas orelhas de abano dele? Vai viver mais que tartaruga!).

Mas (acredito piamente) ela me ronda com sua foice afiada e a maior prova em acolhimento da minha dedução é que ouvi insinuantes anjas. E que trio! Louríssima, branquinha, morena (ou negra). E debreei. E me deixei levar pelas três por gozos nunca imaginados.E o pacto de fidelidade rompeu-se.
E, em plena quinta-feira, quebrei a rotina de trabalho, joguei a agenda no lixo, abandonei o plano de estudos. Desliguei o rádio (pra que ouvir as baboseiras de Malocci?), o cabal chute na tevê (besteira e mais besteira).
Tornei-me pecador e sorvi até o último hausto.
Pedi caldinho (sim, sim, com alho e pimenta), pitucilina (pura, dois dedos, por favor) e uma cerveja (se possível, um copo grande).
Não atirei o paletó e a pasta no lixo por que, de há muito, os abominei. Isto, às 03 da tarde. Depois, comi chocolate (cuidado com o diabetes!. Olha o colesterol, você tá doido?. A enxaqueca vai te derrubar. Este cara não tem juízo, não!). E, às 05 da tarde, me deitei, sem nenhuma preocupação com a madrugada.
Pois, me creiam, é o sinal do fim do mundo. Já antevejo Nostradamus recitando um dos seus parágrafos. Aquele que preceitua: quem bebeu no outro mundo, aqui ( no mundo em que ele se encontra) estará bebido.

posted by Adilson Comments: 19:22


Sexta-feira, Setembro 19, 2003  

Sessão Poemas

“NUTRICIONISTA’

Na universidade?
O canudo
– Beleza! -.
Na vida:
nunca serviu
a ninguém
– na mesa;
grande cardápio,
- na cama -,
com certeza.


“ DE PROFUNDIS”
Rictus de desprezo.
“tua conversa...vazia!
O dialogar nada
Pro do”
fun
Me toquei:
M
a
r
é - ela me inventou.
S?focles? Hermann Khan?
Lênin?
“Corta essa!
Beatles, Paulo Coelho, HQ,
Bagulho”
Engulho
Putaria!
- Retruquei –
Moderninha,
V a i
Tomar no
f
u
n
d
o

posted by Adilson Comments: 12:14
 

Carta a um companheiro de lutas

Aurides,

Permita-lhe mais uma vez expressar os meus cumprimentos pelo seu trabalho e, mais ainda, pelas judiciosas observações que você proporciona, quer nas assembléias, quer em pequenos grupos.

1 – Quando, na assembléia passada, você disse:” o que é que estou fazendo aqui’, foi um pensamento que deveria tê-lo proferido eu. Não disposto a participar de certas reuniões no Sintrajuf, por serem elas cinzeladas por instrumentos que me não agradam, ali fui em virtude de convite a explanar por que deixei a direção ( lembre-se: comecei dizendo Por que saí).

2 – Fui agredido com a denúncia de que estaria “queimando a imagem do sindicato no TRF”, você deve recordar. Se as agressões jogaram Elias Terto pra escanteio, fora da direção, fora da luta, comigo é diferente. Ficarei e lutarei, não faço fofocas e, daí, refutei ( afinal são 42 ANOS MILITÂNCIA):

a) em novembro de 2000, em Belém do Pará, contestei tese da Fenajufe. O resultado é o documento ”Alguns aspectos de trabalho sindical”, datilografado em máquina do sindicato, em março de 2001 e distribuído a mais de 70 pessoas e, PRINCIPALMENTE, a todos diretores do nosso sindicato. Somente um diretor, Edécio, diz não se recordar da entrega.
b) Em maio (ou junho) de 200l, em reunião do comando de greve, eu protestei sobre o embuste que se praticava contra os colegas grevistas, principalmente os de Pernambuco. Perorava eu a irresponsabilidade de certos sindicatos e alertei sobre o que acontecia em vários Estados. Anunciada a paralisação, descobriu-se a farsa. Só existia algum movimento em cinco deles, a Fenajufe exigiu seriedade nas informações. Os colegas trabalhadores do T.R.T. entraram pelo cano. Na reunião do dia 27/ 08, não pedi o testemunho de algumas pessoas, como Gleidson e Isabel, para evitar maiores altercações.
c) Em fevereiro de 2002, a direção do Sintrajuf publicou nota elogiando as condições da mulher trabalhadora brasileira. Repliquei e pedi publicação da minha resposta. Ciente de que a presidente do Sintrajuf estava à minha procura, contactei com o sindicato. Isaac, por telefone e depois pessoalmente, disse-me do pedido da direção para não publicação da minha resposta.
d) Para a plenária da Fenajufe, em Salvador, no ano p.p., inscrevi a tese “Tenso, logo resisto”, que, como você sabe, deve ser antecipadamente apresentada no Estado de origem. O mencionado trabalho pretende discutir desvios como o oportunismo, o aventureirismo e o carreirismo.
Daí você concluir que meus atos foram TODOS PÚBLICOS. TUDO TESTEMUNHADO. A direção do Sintrajuf DEMONSTRAR DESCONHECER tais pronunciamentos escritos e oral dá a mostra da sinceridade do trabalho que tais pessoas desenvolvem.
Por princípio, combato qualquer pretensão contrária aos interesses dos trabalhadores, no nosso meio representada pela Articulação Sindical e aliados (CSC E CSD), cujo punto saliens é o abandono da greve no ano p.p. Nas nossas lutas, a ArtSind (fulcrada no Sindjus/Brasília) comete os maiores acintes e os delegados de Pernambuco ou silenciam ou os apóiam, exceto eu. Assim, descobri que a campanha de Jacqueline é para perpetuar-se no poder, através de uma pobre coitada que não sabe de coisíssima nenhuma ( essa pessoa ficou surpresa com manipulação no congresso da CUT, fato sabido desde os anos oitenta).

Para encerrar ( o seu tempo é ouro e a minha conversa é de latão), em fins de 2002 / começo de 2003, procurei dezenas de companheiros e falei sobre a importância do Sintrajuf como instância de luta. A maioria ficou reticente (uns 40), alguns (8 a 10) já tinham tomado partido (azul ou encarnado), como se o assunto foi pastoril ou futebol.
O que é um sindicato, para que serve, como otimizá-lo, como enfrentar os desvios, nenhum vivente (exceto Gleidson e Moura) se interessou em debater.

Eis a razão de afastar-me da formação de chapa, no Sintrajuf. Para alguns, o cargo é fundamental; a mim, interessa a linha política do órgão.

Se as pessoas a quem reconheço realce no Sintrajuf esquivaram-se à discussão de uma política sindical, fica-me facultado o exílio na discussão de cargos (as candidaturas já estavam postas em 2001, você tem conhecimento). Na discussão de cargos, como seu aluno (ainda que péssimo o meu rendimento), o parafraseio: eu me pergunto o que é que eu estou fazendo aqui.

Esteja certo que estarei ao seu lado nas lutas que se avizinham, ainda que oportunistas, carreiristas, aventureiros procurem atingir-me com os seus petardos, ainda que sem força moral para tanto.

Deixo de transcrever textos de documentos mencionados para não cansá-lo com minhas baboseiras.


posted by Adilson Comments: 12:07


Segunda-feira, Abril 21, 2003  

Seção Poemas

Tarrafa

Mil vezes, ao dia,
rede nágua,
tarrafa seus sonhos.
Mil vezes, ao dia,
rede vazia,
pesca olhos tristonhos.

No mangue

Lameando,
cose-se ao mangue.
Siri, aratu, caranguejo
– seu aceno.
Vergasta-lhe a esperança
a poluição
– seu veneno.


Batalha dos distraídos

Jobmente,
anseia o pescador
camorim distraído:
“peguei-te , filho da égua!”
- posta em refeição.
Pacientemente,
aguarda o siri
distrair-se o pescador:
“pegou-me, filho da puta!”
– patola em ação

Os siameses

A destruição burguesa, lá,
Paraninfava
seu gêmeo,cá.
“Cuba”, “Angola”, “Iraque”,
“Medelin”, “Malvinas”,“Vietnan”,
“Irã-Iraque”...
grifam a exclusão social.
Hoje,
“Arraes”, “Chico Mendes”,
“Padre Henrique”, “Joana Bezerra”,
“Marcos Freire”, “Torres Homem”,
“Nelson Mandela”, “Margarida Alves”...
inventariam o capital.
Diferencial?
Só na “pia batismal”.

posted by Adilson Comments: 14:12
 

Não!...Não foi em vão

As primeiras dúvidas vieram-me em plena juventude. O livro “Diálogo entre dois mundos”, de autoria de estudante goiano, contando sua passagem no “Festival da Juventude “, em Moscou. Ele se refere à surpresa de um jovem soviético, ao dizer-se o goiano filho de latifundiário. O seu interlocutor desconhecia latifundiário. Isto é, era desconhecida a história de seu povo.
O conflito sino-soviético trazia-me contrariedade à beça. Revolviam-me a mente a luta e o sofrimento de milhões de trabalhadores em defesa do socialismo, ou, mais singularmente, em defesa do bem-estar da Humanidade.
As represálias do grupo Kruschev ao Estado chinês calaram-me fundo; as explicações tortuosas sobre o stalinismo, Tito, a nova classe, as diretivas das nações libertadas do terceiro mundo, a invasão checa apunhalavam-me os sentimentos. Não os ideais. Os princípios do materialismo histórico ensinam-nos a observar as classes em luta, o nível de desenvolvimento de cada nação, a batalha ideológica, as classes ou camadas sociais e o seu poder organizatório.
Hoje, 1o. de abril, revejo ( como sói acontecer quase todos os dias. Pois, quase diária transcorre a batalha pela organização popular) o 1.964. O encontro na Escola de Engenharia, da Federal, na Rua do Hospício. A saída, a passeata, os tiros do Exército, os corpos caídos.
Como estava na linha de frente, cheguei primeiro nos feridos. A seguir, Juarez ( Guarda de Segurança do IAPI). Sangue por todo o rosto de um deles. Nunca esquecerei. Nem as rajadas nem os taxistas, fugindo para não socorrer.
Hoje, quase quatro décadas após, com tantas lutas e derrotas, reparo a situação mais difícil. A lavagem cerebral acentuou-se. A batalha ideológica dissemina os valores do capital e domina o universo.
Jonas, Ivan e muitos milhões de trucidados são referências irrelevantes para a maioria. Enquanto outras centenas preparam-se para ir às trincheiras, enquanto o sonho do coletivo durar, poderemos dizer: “não foi em vão”.

posted by Adilson Comments: 14:03
 

Carta a um irmão de luta...

Bosco, um grande abraço. Em você, cumprimento todos os colegas do Tribunal.
Estive relendo – mais uma vez – o seu escrito e lastimo imensamente que se tenha feito grande vácuo entre o emissor e o receptor.
Quando você se refere à “postura atual do P.T.”, “se o nosso candidato cedeu aos apelos face....”, “ se Cristóvan Buarque...”, impõe-se a necessidade de nova conversa. A minha resposta, no jornal, é que não via organização das forças trabalhadoras suficiente às exigências do momento histórico. ( Remember Argentina: a revolta da maioria do povo foi eficaz para impedir a destruição, porém a inexistência de um norte político demonstrou ser aquele movimento incapaz de formular um projeto não-capitalista para a crise portenha).
Sem falsa modéstia, a minha resposta avança além do você conceituou. Não tratei de partido, ou de candidatos. No meu fraco entendimento, a sociedade de classes enlaça variados interesses; alguns desses são conflitantes. In casu, como resolvê-los?
Nas lutas sociais, exemplo maior a luta de classes, não há buraco negro, não espaço para neutralidade. E os fatos e os atos vão além do plano das idéias. O indivíduo representa partícula do total; neste campo de lutas,1+ 1 pode ser = 2 ; mas 50+ 50 é maior que 100. 500+ 500 supera o milhar em repercussão e em força e no impacto psicológico .
Em todos os agrupamentos, em todos os momentos, até numa “simples” compra, decide-se: já prestou você atenção da luta da FREVO com a pepsi, ou coca ou a Brahma? Lembre-se que CNN desencadeou campanha contra produtos franceses, agora, na guerra do Iraque.
Não digo que A, B ou C mudou de lado ( se o fiz, faço-lhe mea culpa, mea máxima culpa); conceituo que as classes sociais em luta, no Brasil, apresentam tais e tais propostas. Ainda, que A, B, C, D representam tal ou qual interesse (ou grupo social). Acresço: tais ou quais proposições necesssitam dos braços unidos das classes trabalhadoras para não sucumbirem ao jogo do patrão (represente-o Buarque, FHC, lula, Maluf, Itamar ou qualquer outro).
A questão é de consciência de classe, de solidariedade de classe. Isso só se consegue com educação política e luta, luta e muita luta. Ao definir que uma greve ensina mais que vários anos de luta, Lênin foi soberbo. Ninguém sai virgem de manifestação deste porte. Qualquer que seja a participação, positiva ou negativa, nela. Daí a recusa de alguns às reuniões, nas discussões. O espírito de avestruz vislumbra-se mais apto a incorporar do que as marcas indeléveis provocadas por discussão de cunho classista. Principalmente, se bem conduzida e onde os pleitos advoguem-se com razoáveis fundamentos e sem afobação.
Por outro lado, a roda da história move-se impelida pela força maior. No nosso país, a nossa força é menor, infinitamente menor, infelizmente ( em termos organizacionais, em termos de educação política) que a dos patrões.
Parodio Floriano Peixoto: operário no poder? Quem o sustenta? Lembre-se Lech Walesa Lênin não era operário, não era proletário. Fidel? Além das concepções filosóficas, as condições sociais e internacionais, às vezes impõem, os caminhos.
Desculpe-me, se estou sendo incisivo, pois não é de feitio denunciar-me como o “pai da matéria”, ou “o dono da bola”, mas a concepção materialista da história faculta-me uma leitura diferente, nem melhor nem pior, da da maioria de nossos colegas. Por isto deixei o P.T. há mais de uma década. Não estava nem estou a fim de servir aos interesses do patrão.

posted by Adilson Comments: 14:00
 

ESCÂNDALO NA FAMÍLIA

Vários assuntos destacaram-se, pelo impacto, no Brasil, neste início de século. Porém, um, ou melhor, uma personagem releva-se pela tragédia em que é parte. Refiro-me a Sra.Vilma, de Goiás, que se tornou tristemente conhecida pela sua possível participação em desaparecimento (seqüestro? furto? compra?) de bebês.
A partir da identificação, pelo Método Print DNA, de alguém desaparecido há vários anos e registrado como filho da mencionada, uma série de surpreendentes acontecimentos, por meses, povoou as manchetes dos noticiosos. Dando ensejo a reuniões e bate-papos. Serviu de repasto aos urubus. Até que cansou.
Depois de idas e vindas sobre a genealogia do jovem e o seu desejo de continuar com Vilma, estourou a notícia de que a filha da investigada também teria sido retirada, mediante fraude, de seus pais biológicos. A denunciante fora a irmã da denunciada. O modus operandi, os partícipes, ainda, desconhecidos. Sabe-se do envolvimento de Vilma.
O primeiro rebento, surpreso com história, conheceu os pais biológicos e, a priori, dizia querer a companhia de Vilma: não muito diferente o comportamento da garota.Demonstrou ela desinteresse pelo assunto, repudiava qualquer possibilidade de exame pericial e, em nenhuma hipótese, o afastamento de Vilma estava em seus projetos. De maneira mui esperta ( ponta de cigarro abandonada por ela), a Polícia comprovou a fraude parental. A garota foi conhecer seus parentes de sangue e preferiu a companhia da denunciada.
Essas duas notícias de cunho penal, aliás, exaustivamente exploradas do ponto de vista da sanção criminal, porém, transportam-nos a um emaranhado de fraudes, mentiras, meias verdades, demonstrando quão fértil é a mente ( doentia) humana, na busca de sua satisfação. Por outra parte, a ação de Vilma feriu de morte matada aquilo que é mais venerável na civilização burguesa: o patrimônio. Direta e indiretamente. Se, para a maioria, o delito cingia-se ao noticiário mundo cão, o lado paterno da questão colocou o dedo no suspiro: nulidade da paternidade, com seus reflexos no Direito Patrimonial
Eis, resumo, os sucessos: vivendo sob o risco da separação, à qual combatia com ameaça de suicídio, Vilma simula gravidez. Era o jeito, industriado por ela, a fim de prender o marido. Daí, a compra , ou furto de crianças.
Após 16, 20 ou mais anos dos delitos, várias famílias vão a Juízo. Ações, as mais diversas são anunciadas. Inicia-se o inferno astral de Vilma. Desde negatória de paternidade (e de maternidade), a questões sucessórias (de nulidade de inventários, de partilhas), previdenciárias , com seus consectários nos registros públicos ou cancelamento de pensão, além das conseqüências na esfera penal, para Vilma, autores e partícipes dessa embrulhada toda.
Além das declarações das autoridades responsáveis pelos inquéritos e ações penais ( sempre inflexíveis quanto o rigor na punição da conduta delitiva), outro elemento marcante é de que, em nenhum momento, os dois jovens admitiram abandonar Vilma (a suspeita ou indiciada). Nesse enxame de depoimentos, as críticas ao ato doloso demonstram quão raquítico é o nível cultural do populacho. Só a poucos foi permitido viajar ao interior do humano, onde sucumbem os desvãos da alma. Esses irão ao processo ou nos escritos, aos quais a maioria é desterrada.
Para concluir: Vilma é vítima de câncer no cérebro, teve ligação nas trompas (o que parece, antes da primeira infração), seu primeiro marido finou sem ter conhecimento das armações em foi envolvido etc, etc, etc. Para alguns, enredo para novela; para outros, mais um caso policial. Para mim, mais uma constatação do que é possível engendrar a mente humana.


posted by Adilson Comments: 13:55


Terça-feira, Março 11, 2003  

O OPORTUNISTA E O CAPITAL.

Pretendendo camuflar as diretrizes de seu governo, o P.T., através de Lula, aproveita todos os momentos para jogar fumaça nos olhos do populacho. Hoje, ninguém se lembra de Jânio Quadros. Vendido umbilicalmente ao capital externo, o governo J.Q. foi pródigo , padrão mesmo, na política de morde – e – assopra. Enquanto as diretrizes econômico-financeiras submetiam os destinos do povo brasileiro aos interesses do capital alienígenas, o presidente homenageava Che Guevara, propunha instalar ou ampliar relações comerciais com a ex-URSS, com a China. Parte da chamada esquerda engoliu a pílula.
Representa-se, no nosso país, a mesma pantomima: desta vez, em virtude das lutas e promessas, o mandrião esgoela-se e clama por outros ilusionismos. Como proibição briga de galo, proibição de biquine, são propostas desusadas, o Governo do P.T. saiu-se com proposta de apelo popular, que é o combate à fome. Como todo oportunista, o presidente eleito esquiva-se de definir a origem da fome, o por quê da miséria numa terra tão rica. Tal qual malabarista, Lula agarra-se a todos fios, cordas e liames para esconder para quem governa.
O agrado aos especuladores, hoje, atribui, ele, a efeitos nefastos do governo anterior. A mentira tem pernas curtas: o pessoal da Fiesp já começou a chiar. As sandices da era FHC não enganam mais. Em 50 dias de governo, o Partido dos Trabalhadores já está totalmente desmoralizado.
Como todo estelionatário, a cada passo esse governo terá de criar ou procurar furtos, esqueletos, fraudes, para distrair a massa ignara. “ É bom alguém incorporar Goebels, pois se as mágicas de Duda Mendonça falharem, a gente tem de recorrer a um propagandista de outro mundo, teria aconselhado a Casa Branca.

posted by Adilson Comments: 20:33
 

DOEU NOS CALOS ?

Várias são as mensagens e muito mais as indagações da base do Sintrajuf sobre os caminhos a seguir ante as propostas do governo do P.T. Em quarenta dias, a máscara esboroou-se. A esperança vence o medo, isto é, os argentários seguem impondo suas diretrizes.
Não é por acaso que o presidente do conglomerado Itaú felicita o presidente. Com FHC no governo, esse grupo alcançou os maiores lucros do mundo: se tudo continua com Lula, vivas do Itaú. A agiotagem agradece.
Muito menos surpreendentes os aplausos da especulação internacional, via F.M.I. O PT impõe ao povo brasileiro o que nenhum ditador nem Collor nem FHC pretendeu: oficializar a entrega da cabeça do Banco Central na bandeja da traição.
Agora, o medo ressurge no batente dos funcionários. Agora, o desespero pequeno-burguês começa: desde voto em branco, manifestação de tristeza a lamentos de todos os matizes. As propostas desse governo de submissão ao grande capital constam em todos os meios de comunicação.
“ O quê o sindicato vai fazer?”. Está muitas bocas a pergunta. Como trabalhador e sindicalizado, eu replico: “Você vai continuar dando muxoxo à perda de seus direitos? Ou vai esperar que outros lutem por você?” . É a base que, ativamente, deve impor linha do órgão de classe. Com conhecimento de causa. Com definição política.
Quem se preocupou em configurar as relações de forças dentro do Partido e suas relações com a CUT, tinha ciência que o pior da aristocracia operária, os mais daninhos vícios do movimento sindical colocaram o manto de oposição para melhor servir ao patronato. Só as “inocentes” de cais do porto engoliriam Lula, José Dirceu, Mercadante, Genoíno, Marinho, Vicentinho e seguidores.
Há anos que o jogo estava no pano: dinheiro da Previdência para os fundos de pensão, dinheiro dos trabalhadores para o mercado bursátil, perseguição ao M.S.T., destruição dos serviços públicos. Por onde o P.T. passou, o jogo dos patrões deixou marcas; por onde o PT governou, a traição aos ideais dos trabalhadores reinou. Nepotismo, corte nas verbas sociais, tráfico de influências, uso da máquina pública para fins obscuros: não por acaso o governador Garotinho apodou-o de “partido da boquinha”.
Tudo isso acontecendo e a nossa base, na praça, dando milho aos pombos. Debatendo Xuxa, Faustão, Hebe, Celta, Uno Mille,Gol, Fórmula 1, BBB, Silvio Santos, Romário. Hoje descobre que “ o mundo passou na janela e só Carolina não viu”. A saída dos trabalhadores frente à crise do capitalismo é uma só: mobilização., mobilização, mobilização.
A defesa da Previdência Pública, Universal e Solidária, o reajuste anual dos salários, a correção da tabela do imposto de renda são partes de uma luta que engloba a redistribuição da terra, a redistribuição da riqueza nacional, mais emprego, retomada de Alcântara, fora a Alca, ruptura com o F.M.I..
A destruição da força de trabalho, a especulação reinante tarde ou cedo levar-nos-ão ao caos. A perda de mais de 60 direitos passou incólume: vários deles ferem a inatividade de morte matada e a base silenciou..... Hoje, infelizmente, resta lembrar o poeta: “ Uma noite, eles invadiram o meu jardim e furtaram uma rosa e.......” .

posted by Adilson Comments: 20:32
 

DEU NO NEW YORK TIMES

Brasília – urgente Os meios culturais do País estão em polvorosa. Segundo informações in off, a Mais Alta Corte do Brasil será acionada para um caso melindroso. Os Pedros, dupla de rock progressivo que, por oito anos, reinou nas paradas e abalou a renda nacional, irá à Justiça contra dupla caipira emergente. Sob o rótulo de plágio descarado, os autores se propõem contratar os serviços do Instituto de Técnica Fonética da USP ou da UNICAMP e comprovar que a dupla caipira ZéDirceu-Palloci engrola a língua para mascarar a cópia grosseira da obra dos autores e, assim, surrupiar os direitos autorais.
Quem se deteve em comparações diz que é tudo igual, segundo declararam peritos e abalizados em estudos de Fonética, Semiótica e ciências afins. “ A prova maior consiste nas declarações do Itaú, Febraban, do FMI” – dizem alguns; ou nos apoios de Mirian Leitão, Dora Kramer, FHC, Veja, O Globo e outros urubus – acrescentaram terceiros.
Para os especialistas, o fulcro do imbróglio é que a dupla original (Malan e Parente) falava português escorreito a fim superar suspeitas de que ela seria cover dos B.G.S, isto é, o conhecido bando Bush - George Soros – Sacripantas.
O insólito da questão é a proposta do patrono dos autores: o advogado (?) celebremente desconhecido até de sua vizinhança, se escondendo numa cabeça – de – porco, destinou seus honorários ( cerca de 1 bi de dólares) para que o Presidente Lula enviasse algumas quentinhas a seus amigos pobres, como Bill Gates, o Sultão de Bahrein, G.Agneli Rockfeller, Ford, R. Murdoch, a família Saud, e complementar a cesta básica que o P.T. vai destinar ao FMI.
Ouvido pela Imprensa Internacional sobre tal gesto de fraternidade universal, Adilson Lira ( o desconhecido advogado), com olhos lacrimosos, exultava: “precisamos ajudar o grande líder a saciar os famintos de lá ( dos U.S.A) “. Após enxugar os olhos, acrescentou: “ se sobrar alguma coisa, espero que o nosso Timoneiro mande-a para o grande Bushinho democratizar a França, a Bélgica, a Alemanha, invada a Rússia, a China, a Áustria e outras terras do eixo do mal.”.

posted by Adilson Comments: 20:30
 

A INDEPENDÊNCIA É UMA HISTÓRIA.

Na Praça da Independência fala a história nacional.
Ali, aos olhos, o presente sem futuro.
Mais, o presente silente:
O presente que se anseia ocultar.
Ali, o capital vomita suas entranhas....
Figuras comuns e nada estranhas:
A miséria apregoa veado, gato, galo, vaca...
Ou, apocalipticamente, recrimina:
Meninas, tristes meninas,
Vossos dramas negai.
Ali, não há distância entre Deus e o Diabo.
Céu e Inferno ali é nação.
Nesse diálogo de surdos, em cada gesto
O sinal da melancolia.
Policiais, guardas ( como há).....
Desempregados, camelôs, indigentes ( como há)....
Transeuntes apressados ( como há)....
Só vertem emoção ao grito de gol: gol, gol, gol ......
Então, abre-se o infenso ao “comércio”, à buzina, ao hinário.
Perguntas diretas, parco respostar, ligeiros comentários...
Gol do Santa. É gol do tri, tri, tri, tricolor.....
O terror do Nordeste! .....esgoela o locutor.
Alegria, gestos de solidariedade, na maioria dos rostos.
Poucos reprovam: descompostura, ares de desgosto.
Recomeçada a partida,
De inopino, refaz-se a lida;
Aquela que, por instantes, se fez ausente
Volta à guarida.
Como dói o dia-a-dia (na Praça da Independência)
De um povo dependente.

posted by Adilson Comments: 20:26


Quinta-feira, Janeiro 23, 2003  

A volta do bode expiatório.

O funcionalismo está em transe. Nem bem assentou os fundilhos nos desvãos do governo, o P.T. arreganha os dentes e mostra a quem pretende servir. As medidas fundamentais aos interesses dos trabalhadores brasileiros, como redistribuição da renda nacional, correção de perdas salariais, desconcentração da propriedade agrária, retomada da base de Alcântara (hoje, entregue aos E.U. A), ruptura com a política imposta pelo F.M.I. são traídas.

O governo Lula mistifica a maioria espoliada a fim de servir à política econômico-financeira que a população derrotou nas eleições passadas. Se parte da categoria mostra-se surpresa, aqueles que se preocupam em estudar a problemática pátria eram cientes de tais propostas. Já em outubro de 2.000, assessor do P.T. pregava mudança na previdência pública e solidária a fim de transferir recursos para o mercado bursátil. Daí, hoje, o governo recém-empossado demonizar o servidor publico, acusar a quebra da previdência oficial. Para distrair a nação, volta a acenar os velhos “fantasmas”. Tal qual Collor, tal qual F.H.C.

A tradição de vinte anos de lutas impede-o de usar in totum o linguajar do governo anterior. Mas, no fundo, a conversa é a mesma. É rebarbativa a falácia previdenciária, mas as cabeças do P.T. pretendem caninamente servir aos seus patrões especuladores.
Por outro lado, revelam inelutavelmente a incompetência que os acompanha:

1 - a maioria do governo F.H.C.(PFL,PMDB,PSDB, PTB) vetou qualquer limite previdenciário aos milicos. A burguesia sabe que o poder militar é a arma precípua na espoliação da maioria dos brasileiros;

2 - a PL 09 encontra se no resguardo de votação de DVS do PMDB excluindo a magistratura na reforma previdenciária. Aliás, nas questões sociais onde se situa a magistratura?

3 - a quebra de cláusulas pétreas, algumas já decididas sete vezes, só demonstra que Berzoini ( e outros pontas-de- lança) desrespeita totalmente o pensamento jurídico nacional. Ele serviria melhor aos especuladores no Congresso ou no Sindicato dos Bancários; porque, ali, expor-se-ia menos ao ridículo, com sua capa de trabalhador ou “ sindicalista revolucionário” (como os classificou o Presidente Lula).

Os números da previdência permanecerão em sépia. O Presidente, ministros, assessores esconderão que o servidor recolhe muito mais que o celetista; que 20% da receita da previdência ( pelo menos) são desviados e movimentados ao bel-prazer do Presidente.
Por outro lado,as anistias, as isenções, as elisões, os abatimentos de fundos da previdência permanecerão. Pois, intangíveis; por que beneficiam o patronato, o qual incentivará a quinta-coluna no ataque aos servidores.

A poupança forçada do servidor público gera (e gira) vários bilhões; a especulação, de há muito, o urubuza. É um dos últimos grandes filões em todo o universo, daí todos os vilões da especulação quererem passar a mão nele. O interesse do funcionário, a garantia do seu futuro, se ele quer o seu numerário aplicado em especulação, isso não vem ao caso – segundo o governo petista.
No futuro próximo, o servidor, desolado, saberá que o seu dinheiro saiu pelo ladrão (o fgts é o exemplo mais cabal de como as elites manipulam os bens do trabalhador). E ele ficará a ver navios.Como já aconteceu no Chile, acontece nos Estados Unidos (segundo cálculos os fundos de pensão já perderam 35 TRILHÕES de dólares). Ou aqui mesmo: onde mais de 80 fundos já pipocaram, mais alguns estão à deriva.Os associados da Previ vão ter de assumir o rombo de 4 bilhões.

Será que esquecemos da COIFA ou da CAPEMI, do MFM , do GBOEX e outros de triste memória?

posted by Adilson Comments: 12:10


Quinta-feira, Novembro 28, 2002  

INFERNO DE MÁRMORE.

Cada vez que me defronto com o edifício-sede do T.R.F (ou de qualquer outro tribunal) invade-me a sensação de que estou no lugar errado. Em Brasília, por exemplo: na Ilha da Fantasia, ou na Ilha Fiscal.
Ali, não existe nada que retrate o nosso país. Não o Brasil das ruas, das fábricas, das vilas populares, o Brasil dos excluídos, da maioria ou o Brasil negro-mestiço-mulato-índio.
A própria edificação, granitos, mármores, ajaezados, as dimensões, demonstram que se está muito longe dos que constroem a riqueza nacional.
A imagem daquele ambiente não se liga só à suntuosidade. Parece-me que, ao perpassar os portões, os servidores se despedem da alegria e vestem-se do ar soturno dos locais de purgação. Ao debruçar-me sobre a Colenda Corte, vêm-me de supetão as palavras de Dante, aos que chegam no Inferno.
Racionalmente; a memória traz-me elocubrações da parte diferente dali; dos lutadores, dos que se fazem dignos de nossas vitórias, dos que se impõem como cidadãos.Todos sabem que pessoas de caráter dúplice costumam aparentar enfado,estresse, irritação, mal-estar, falsa alegria ou desinteresse pelo que pertine à maioria.Talvez por razões que, só, Freud explique ou Marx, com sua Teoria da Alienação do trabalho; talvez por razões psico-fisico-sociais.
Elas vivem nas Hades: camada média, augurando Nova York, Londres, Paris, ou Vieira Souto,ou os Jardins, cada dia descobrem o bolso furado. A política do neocolonialismo a destruir o mercado de trabalho. O arrocho salarial. A compressão do mercado interno.
Não há saída para elas, além das lutas comuns dos trabalhadores, dos “proletas”. Como parte ponderável chegou pela “janela” e está ali de favor, sem outra fonte de renda, encontra-se (moral e psicologicamente) inibida de tirar a carcaça pequeno-burguesa.
Aos colegas (?) de trabalho, aos que lutam, aos simples mortais, essa gente conversa, fala, trata, recebe como se dominada estivesse pelo nojo. Reação igual à que ela oferece aos gangrenados no passeio público. Alguns dessas pessoas são tão acintosas que se orgulham da impolidez.
De outro porte é o tratamento tributado por essa gente se o interlocutor for um capa preta ou alguém que possa representar qualquer fatia do Poder (principalmente do mundo do capital).
O pior da escravidão é que ela gestou, em alguns, a psicologia do capacho e a síndrome da chibata, muito presentes nesses que refutam em assumir o jugo do salário, a proletarização, ainda que disponham de paletó, gravata e auto veículo.

posted by Adilson Comments: 15:07
 

A Padroeira

Alguns pretendem impingí-la como soberana, impoluta, imparcial. Para tal, exigem, perante ela, gestos solenes que demonstrem fiel acatamento, ou mesmo, submissão. Vestes Talares. Palavrório estranho e incompreensível a maioria dos mortais, romarias, também, fazem parte da mise-em-cène. Em varias parte do mundo, a mesma ladainha, ritual repetido kirie, gloria, credo, agnus dei a bíblia não muda.

Com esse babado todo, salamaleque pra tudo que e lado, quase toda a população e passada na vaselina. Ou comida no azeite de dendê. Na terra vizinha, durante anos, trabalhadores com ou sem emprego, aposentados, pensionistas (os excluídos), pequenos poupadores viram suas preces desatendidas. A padroeira fez-se de surda. Fez ela ouvidor de mercador.
Os oráculos, os bispos, cardeais, hagiógrafos da sagrada família lêem outros santos livros.

Com o agravamento da crise, o governo Duhalde desvalorizou o peso. A maioria Argentina tomou um rombo, de inopino, de 60%. Parte da elite financeira perderia 8 bi, cerca de 28% do investimento original ( nos últimos dias do ano findo, saíram clandestinamente mais de 25 bi).Incendiou-se a banca internacional protesta Tio San. Emissário espanhol em Buenos Aires. Alemão põe luto. Felipe Gonzalez discursa. Missiva de Asnard. A tríade imperialista (FMI. BIRD, OMC) crítica, questiona: O governo argentino feria legítimos direitos.
Ai, no palácio da padroeira, beatos, oráculos, reunidos, deliciaram-se com os benditos e orações . Os cardeais, na homilia, homenagearam os sacrossantos direitos da agiotagem aos lucros dela de cada dia.

Enquanto o governo de lá acicatava por todos os meios e formas a maioria, tudo era legal (igualmente no País do futebol). Desemprego, fome, violência, arrocho salarial, bloqueio de contas bancarias, corte de verbas sociais, tudo dentro dos conformes – segundo a padroeira. Bastou o capitão-do-mato tentar passar a bola para quem comeu demais (oito bi em 200 bi), então a justiça mostrou a sua cara. A interlocução fez-se rápida. Resposta de plano.

Anuncia-se crise bancaria, previsto choque de poderes, alega-se a ilegitimidade do governo, tudo cortina de fumaça para esconder a quem servem os poderes constituídos. Será mera coincidência a padroeira macaquear-se com venda, balança, espada, palácio, indumentária especial, quando quem a mantém vive maltrapilho, faminto e violentado? Segundo alguns, esses trecos todos soem dificultar a visita do populacho e a balança indica quem estará próximo dos seus pés ou do seu coração.
Para os de baixo, espada e pe na bunda para os de cima, todos os cuidados maternos da veia cega.

posted by Adilson Comments: 15:04
 

O SENHOR MESSIEUR E O RECIFE.

Entre irritado e pessimista, o Mestre Aníbal Fernandes narrava o estupor de determinada personalidade francesa, em serviço na MAURITZSTADT, ante a algazarra nossa em certas manifestações.
A irritação tinha fundamento nos desrespeitos aos mais comezinhos princípios de urbanidade, como: repouso, sossego, sono tranqüilo e reparador; o pessimismo era tomado por que, sabia o mestre, que certos hábitos custam muito a cair. Sim, custam muito. Prescindem de recursos financeiros, através de educação, cultura, aprendizado. Além de décadas de persistentes campanhas de cidadania. Em verdade, de civilização.
A surpresa do gaulês se devia ao gosto da gente da terra pelo foguetório, pelo som elevado, pelos gritos. Várias vezes, o Messieur pareceu assustar-se com a possibilidade de estar em meio a guerra, ou revolução. Depois de muitas explicações, de que comemoramos o Natal, o Ano Novo, o mês mariano, os desfiles escolares, carnavalescos, a temporada junina, a vitória no futebol, o aniversário, o dia disso ou dia daquilo, com o foguetório dos diabos, é possível que o estranja se tenha acostumado. Se é que se acostumou.
Enquanto o francês tentava habituar-se, foi levando bomba pela cuca. Rojão, espanta-coió, limalha, peido - de- véia, bomba-canhão, estravaliana, ronqueira, meia-ronqueira, foguete de um , de dois, de três tiros, salvas. O diabo- a- quatro. De todos os tipos e qualidades, pra ele não se meter a besta.
Na França, dizia ele, barulho igual só nas guerras ou revolução. Aqui, respondia o jornalista, a revolução era sem zoada. É só matar alguns milhares de trabalhadores, estudantes e comunistas, dizemos nós. A propriedade estará garantida, até a próxima matança – acrescentamos.
Meio século após, surpreende-me a madrugada de foguetório, de música em alto volume, de gritos de todos os tipos. Lembro-me que é Noite de Natal. Vêm-me à mente as interrogações do gaulês. De inopino, ouço o recém-nascido em choro, vejo o bebê sobressaltado, os genitores embalando seus pequerruchos. A mãe, cansada e sonolenta, tentando afugentar o invasor insuportável.
Todos vedam portas e janelas, tentam proteger as ouças dos seus rebentos. O bombardeio, os gritos, enfim o barulho continua. Permanece; parece eterno.
Mundo, estranho mundo: os festeiros nunca se lembram que os doentes, os infantes, os recém-nascidos, enfim uma parte da população tem direito ao repouso. Que uma parte da população tem direitos.
Certo tipo de gente demonstra que alegria é rima para infortúnio, desassossego, violência. Estupidez. Ah, Deus, como dói conviver com os bárbaros. ( de todos os tipos).

posted by Adilson Comments: 14:55


Um Clandestino no Universo

Ela, altaneira, estoica;
Eu, uma atitude nada heroica.
Motosserrada a semantica,
O sangrar provocou intensa colica.....
Sua constituicao nao era muito catolica.
A violencia, vi-a, deveras, na gramatica.
Sem estrategia nem tatica,
Sem a beatitude tantrica,
viajo a finesse elefantica.
Algoz feroz da metrica
(estrofes? algumas quilometricas,
outras mui pequenas
- dois ou tres fonemas
quase milimetricas)
Substantivos e adjetivos dispersos
numa liquidificacao tetrica,
assassinam, amortalham versos
na cadeira eletrica
( ou em dose letal....
with care: seringa deve ser virginal).
O que fazer na terra,
onde o money a verdade encerra?
- capital, animal!!... o vil metal -
Que tal?!
Pao, circo, carnaval.....!
Que tal?
Entre arteiros, ergo-me um forasteiro.
- o dinheiro....fe-los so bosteiro
Um peregrino ...neste mundo viperino
- a razao converteu-se em insensatez
e a bencao,.... em praga
nele nada me embriaga.
Rebelde, sou; contesto. Confesso...
Puto da vida, confesso:
A burguesia me fez, fez o povo
da sorte - um bufalino,
sem destino.
Em repudio, me faco clandestino.
Num sistema tacanho, sem tamanho,
um estranho...
estranho clandestino
no universo.



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